Tuesday, February 26, 2013

Um Inventor

Do outro lado da mesa olhava-o coma face entediada de quem não gosta do que ouve. Por detrás, a luz de um dia de verão entrava pelas janelas que formavam a parede. Um céu azul pontilhado pelo belo branco das nuvens contrastava com o negrume humano que se sentava à sua frente.
A mesa, qual palco de guerra, era de vidro translúcido, tintado de um escuro acinzentado. Reflectia as garrafas e copos de água que o tempo se encarregara de gastar.
O tempo dedicara-se também a produzir fortunas nos advogados que a ambos serviam, a escrever contratos e atas, infrações de patentes e acordos para licenças, estas e outras burocracias que alimentam o sistema caduco em que se movimentam.
Nunca pensara que ao criar um brinquedo para a sua cria a vida mostrasse o seu lado mais feio e imprevisível. Desde as noites sem dormir de volta de esquiços e notas, aos dias consumidos prototipando até à exaustão a alegria alheia, toda esta aventura criativa resumir-se-ia àquilo que após perder a sua carreira seria a esperança da sobrevivência.
Era, agora, posta em causa por aqueles que sentados em gabinetes com vistas panorâmicas para a cidade de formigas, insignificantes seres que diariamente faziam o seu trabalho e o de mais alguém, gentes de sonhos térreos e ambições curtas.
Já tudo tinha sido dito, orçamentos de ambas as partes para este problema gastos. Na última audiência inesperadamente subentendeu-se a vitória do inventor. Daí talvez o súbito interesse da companhia no acordo amigável em que não só receberia lucros provenientes do licenciamento como ainda royalties de 10%.
Ficaria rico, justiça feita, e sustento vitalício para si e para os seus. A longa batalha que tantas vezes fora desesperante e desmoralizadora aproximava-se do fim e a vitória cheirava-se no ar.

O olhar, no entanto, era de desafio

Para quem estava prestes a pagar-lhe o que de direito, parecia demasiado arrogante. Arrogante e enfadado, como que esperando algo que nunca mais acontecia.
Quando finalmente, ao volante do seu carro já com tudo assinado e amanhã assegurado, os travões não funcionaram após o embate traseiro do carro antigo que o seguira desde a porta da Companhia até à serra escarpada, ele percebeu.

Os pequenos nunca ganham.

Nunca ganharam, nunca ganharão, e ele não seria a excepção.
Antes de falecer, durante a queda, viu na calma aborrecida do advogado a previsibilidade do sei final. A esperança numa conclusão feliz impedira-o de compreender que o que estava em jogo não eram os seus direito, mas sim a omnipotência de quem controla o poder.
Morreu, segundo a investigação e conclusão oficial, vitima de um acidente provocado por excesso de velocidade. A família chorou-o, pobre.

Wednesday, February 06, 2013

O turista

     O ritmado padrão dos solavancos dos carris lembravam-no de que estava em viagem, embalando-o vagarosamente nos seus torpes pensamentos.
     Como ela era parecida. O mesmo cabelo castanho claro, o mesmo nariz fino mas não grande, como quase todas lhe pareciam ter.
     Os mesmos belos olhos castanhos com subtis tons de esverdeado escuro, profundos e fortes, daquelas cores que nos puxam para dentro delas, misteriosas, enigmáticas, cativantes.
     Tudo na sua vizinha de viagem o lembrava daquela que o tinha abandonado.
     Desde a linha do maxilar que delimitava o seu caracteristco queixo até à forma  do seu corpo relaxado no banco, com o braço apoiado na janela suportando uma entediada cabeça.
     "Fala inglês?" perguntou-lhe ele.
     "Sim" respondeu-lhe surpreendida.
     "Você é inacreditavelmente bela, sabia?"
     A resposta foi-lhe totalmente inesperada: revirou-lhe os olhos e, com um visível desagrado, virou a cara para o mundo do outro lado da janela, ignorando-o.
     "Desculpe-me não pretendia ofende-la, lembrou-me alguém conhecido apenas isso..."
     "Não o conheço de lado nenhum, por isso se faz favor não me dirija palavra"
     "Não a incomodarei, perdão"
     Que falta de educação, pensou. Nada tinha dito de ofensivo para merecer tal género de resposta.
     Estranha cultura esta, onde um elogio é recebido com mau grado e a distância entre desconhecidos parece ser um fosso intransponível.
     "Talvez resquícios de uma ditadura mal curada" disse a si mesmo "uns povos lidam com o presente melhor que outros" concluiu.
     Aparentemente todos os programas, anúncios e passa-palavra que lhe tinham chegado aos ouvidos eram nada mais que uma bela falácia. Até agora apenas tinha encontrado enfado e má vontade, distância e desagrado pela comunicação com um estrangeiro. "Desconhecimento da língua talvez, as pessoas não gostam de lidar com a sua ignorância."
     Quando cá chegara a hospitalidade do povo que o recebia foi desde logo posta em causa: no aeroporto dificilmente percebeu como chegar à estação de comboios pois ninguém soube explicar-lhe em inglês como lá chegar. Uns quantos "desculpe não tenho tempo", uns acenos negativos e caras viradas para o lado contrário, senhores de mala na mão, fato, gravata e pouco tempo; serviu-lhe uma senhora da limpeza que, curiosamente, falava um inglês perfeito. Origem eslava, parecera-lhe, pelos traços do rosto.
     Na estação de comboios uma senhora de meia idade sentava-se nas bilheteiras e, mais uma vez, era incapaz de comunicar com ele. Pior do que a ausência de diálogo, a estupidez: ao não ser compreendida repetia na sua língua nativa o que lhe parecia as mesmas palavras, mas mais alto e devagar. Perdera a paciência consigo e, apontando-lhe uma direcção, mandou-o embora. Lá descobriu uma máquina de bilhetes, felizmente ali sim havia inglês que lhe explica-se como comprar um bilhete.
     Durante a espera para a continuação da sua viagem o café de mau aspecto onde comprou um típico pastel de nata e um café, recebeu mais uma vez um tratamento familiar ao que conhecia da sua pátria. Mal encarado, comportando-se como se lhe fizesse um favor, um senhor de bigode e afanado apressadamente lhe serviu o que pediu. Mão sobre o balcão e inclinado para si, esperava pelo dinheiro que lhe era devido. Reparou que após receber e guardar o dinheiro num saco não recebeu qualquer tipo de talão. Práticas de cá, pensou, maneiras diferentes de fazer as coisas. A pressa parecia ser provocada pelo programa de televisão que de momento dava, uns homens cada um no seu pequeno palanque a exaltadamente esbracejar e insultarem-se uns aos outros. Há coisas que não precisam de se perceber para compreender. Pelo cenário, era futebol.

Inesperadamente o comboio começou a travar. O barulho das rodas nos carris era ensurdecedor, o balançar do comboio ameaçador e a vibração assustadora.
Quando finalmente parou, perguntou num misto de curiosidade e surpresa com a calma dela "que aconteceu? porque parámos de repente?"
A resposta, mais pela indiferença do que pelo que significava, desarmou-o "o mais provável é que seja mais um a atirar-se para a linha".

"É normal isso acontecer?"
"O quê? matarem-se?"
"Sim"

Pelos olhos dela claramente depreendeu que, de facto, conhecia mal o país onde estava.

"Você vê noticias?" via, mas não sobre isto, sobre aqui, sobre longe. Ou pelo menos sobre o longe que não importava. É que Portugal não importa. Não tem peso no mundo. Não é noticia a não ser por algo triste ou miserável que, no entanto, não afecta substancialmente ninguém fora das suas fronteiras.
"Creio que... não sei... não estou mesmo a perceber o que se está a passar". A linguagem corporal dela não lhe dava dúvidas, a consideração por ele, que já devia ser pouca, era agora nula.
"A crise? pessoas com dívidas que não podem jamais pagar? você sabe que cá morre-se à fome certo? que se trabalha para não ter o suficiente para viver?"
"E matam-se por isso? na linha do comboio?"
Não conseguia perceber. De onde vinha o que não faltava era gente que vivia sem trabalhar, à conta do estado, verdadeiros parasitas. Desconhecia que onde estava os parasitas eram, essencialmente, quem mais tinha.
"Na linha do comboio, nas escarpas e penhascos, nos comprimidos, nos tiros, onde der e calhar. Morte é morte."
"Mas isso é uma fuga simplória a um problema que se resolve! trabalhem, lutem, arranjem formas diferentes de viver! um trabalho não chega? arranjem outro! dêem a volta à situação, sobrevivam!"
Olhava-o como se fosse um completo idiota.
"Você, sobrevive?"
"Desculpe-me?"
"Você, sobrevive? a sua vida baseia-se em sobreviver? Acorda de manhã, quando ainda não há sol, e vai sobreviver. Deita-se quando o dia se foi e, três ou quatro horas depois, volta a sobreviver. Faz isso?"
Não, não fazia. De facto, não o fazia de todo. Acordava com o sol, vivia o dia, deitava-se e descansava.       Mas não quis dar o braço a torcer.
"Não, mas minha cara lutei para isso! cada um tem a vida que tem, às vezes é injusto, mas é preciso fazer por ela, dobrar os braços e aceitar o destino não é solução!"
"Você lutou? e as pessoas que em desespero fazem isto pensa que fazem o quê? sentam-se em casa à frente da televisão à espera que lhes caia o sustento do tecto? Que a sociedade mude para eles? Você tem sequer noção da barbaridade que está a dizer?"
Aparentemente não tinha, para ele parecia-lhe pouco mais do que lamentações. Fizessem o que ele dizia e certamente a vida não lhes seria tão amarga como a jovem à sua frente caracterizava. Afinal uma das coisas que lhe tinham contado sobre este povo era verdade, o Fado era desporto nacional.
"Não fale do que não sabe. Quando trabalhar doze horas e não receber o ordenado mínimo à 4 meses sinta-se no direito de dizer alguma coisa sobre a situação. Agora um moralista ignorante do que sai da sua boca, um turistazeco que se acha superior por andar no outono a passear e largar pérolas de sabedoria aos autóctones... tenha vergonha. Poupe-me à sua estupidez."

Diziam-lhe que eram educados. Que gostavam de receber. Que eram pessoas amigas de ajudar.
"Um povo simpático, vais ver. Gente porreira. Tentam sempre ajudar, mesmo que não saibam falar outra língua que a deles. Gente ignorante estás a ver, vivem lá no fim da Europa. Mas o tempo não é como cá, é quente. E a fruta, a fruta tem sabor! a comida é boa, pagas pouco e comes bem. Aquilo para férias é bom, vais gostar!" diziam-lhe antes de partir.
"Super simpáticos, as coisas são baratuchas, o calor e o mar, aquilo é bonito."
Só coisas boas que agora, vivia, não eram verdade. O tempo, sim, o tempo era agradável. A comida, enfim, ainda só tinha provado o pastel de nata; era bom sem dúvida, mas nada que justificasse uma visita. Simpatia? devia ter ficado com a pressuposta personagem suicida, porque não a encontrava em lado nenhum.

"Oiça lá menina! eu não a ofendi escusa de me falar nesses termos!"esta pacóvia atrevia-se a falar-lhe assim. Era inaceitável.
"Não ofendeu? parte do principio que sabe o que quem toma a decisão mais corajosa da sua vida sente e está errada, parte do principio que tem a solução para os males de uma realidade mais complexa e difícil do que aquela que toda a vida o rodeou, julga que é quem? que sabe o quê? Rebaixa a inteligência colectiva de quem aqui sofre e não tem oportunidade de sobreviver e crê não ter ofendido? Por fim ainda se sente tocado com as verdades?"

Claro que tinha a solução para o problema fundamental desta gente. Sucintamente, tinham de deixar de ser preguiçosos. Mãos ao trabalho, mexerem-se era o que precisavam. Toda a gente sabia que não havia outra solução senão esta; dos economistas aos políticos, dos jornais aos comentadores, no seu pais toda a gente dizia o mesmo. Seria possível eles verem a realidade e esta gente, que vivia mal e se matava por ter abusado nos gastos e diversão, serem tão cegos? Incrível, assim certamente nunca sairiam do buraco onde estavam.

Inesperadas situações mudam o Homem. A rapariga, agora sentada não sabia onde pois tinha-se ido embora, tinha-lhe cortado qualquer contacto possível depois de uma aproximação sua com lisonjeiras. Foi preciso uma ofensa (ainda que não premeditada nem consciente) para quebrar gelo e iniciar conversa.
Estranha cultura esta.
Ao fim de algumas horas o comboio recomeçou a andar. Nunca saberia ao certo o que se tinha passado,  as ambulâncias que ouvira enquanto esperavam seguir caminho denunciavam que provavelmente a criatura com quem acerbamente discutira momentos antes teria razão.

Começava a duvidar da sua viagem. Saíra de casa, de perto dos amigos, família, colegas, para poder libertar-se do demónio interior que o perseguia. Não que tivesse fugido, era preciso coragem, convencia-se, para sair do conforto do conhecido e ir palmilhar (ainda que de comboio e avião) o desconhecido.
Para trás ficara uma adição à cocaina, um alcoolismo perto do incontrolável, uma ex-namorada ingrata que o traira sem justificação possivel. Refletia agora que talvez as ácidas palavras que lhe dirigiu durante meses, o modo como fora de si a tratou, provavelmente teriam contribuído. Nunca saberia bem, metade das vezes que, julgava ele, teria tido um comportamente menos aceitavel estava afogado. Grandes momentos esquecidos por si, deduzia.
Vícios caros também não ajudaram. O que começou por ser uma parte do rendimento dedicado a uns momentos efusivos e felizes passou a, como sempre acontece, tornar-se a razão da existência do dinheiro. Ela, incompreensiva, começou por criticá-lo. Criava conflitos desnecessários gritos puxões chapadas, zangas e fitas, birras inacreditáveis. Quem era ela para se armar em mãe dele? Ele era um adulto, faria o que queria, e se ela não aceitava isso podia muito bem por-se a andar, não precisava dela para nada. Um dia, pôs-se. Não sem antes, segundo ela, um momento de fraqueza. Uma necessidade extrema de compreensão, de ternura, de carinho de aceitação de bem estar de paz de calma de liberdade , de amor. De vida.
Quando percebeu que as mãos que o agarram à vida desapareciam, uma por uma, usou aquilo que à demasiado tempo tinha esquecido possuir: inteligência.
Falou, calmamente, com os pais. Explicou-lhes entre lágrimas, lamentos e culpa o que o queimava por dentro. A necessidade de mudar, completamente, tudo. Afastar-se dos que o prendiam ao inferno e procurar longe quem o levanta-se do buraco psicológico e emocional em que se tinha enfiado.

E fugiu.

Escolheu o lugar porque era barato, porque tinha pouco dinheiro, porque no aeroporto estava a fechar um voo para lá e, sem pensar, foi.
No fundo, escolheu o que tinha já escolhido. Informalmente perguntou a quem já lá tinha ido a sua experiência, e sabendo que aqui teria a bondade desinteressada que não conhecia onde estava, aventurou-se.
Mas se começava agora a perder a amarra emocional que esperava encontrar, de que servia isto? Para quê andaria ele a cansar-se, de um lado para o outro, enganando-se? Tal como todos os outros, não era aqui que se salvaria, era fechado sabe-se onde junto de outros drogados, vigiado, controlado, isolado.

Via agora campos e campos, alguns plantados alguns abandonados. De tempos a tempos passavam por uns bosques estranhos de arvores baixas, tão diferentes das altas e frondosas da sua pátria.
Se as florestas daqui fossem todas assim, eram como os homens que aqui viviam: pobres, baixas, de roupas arrancadas e rotas, todas amarrotadas. E espaçadas. Uma aqui, outra ali, sol o abundante sol entre elas. A distância intransponível era a natureza desta terra.
Ele que vinha à procura do calor humano, da simpatia e compreensão, via-se agora tão sozinho como em casa. Cruéis ironias da vida.

Numa das paragens reparou na rapariga que tinha tido a presunção de questionar as suas opiniões. Tal como todos os outros, uma simplória que preconceituosamente fizera os seus juízos de valor sobre si e sobre ela, sobre os outros e sobre tudo. Mais uma que partira do principio que ele, por ser de onde era e estar onde estava, tinha tido uma vida fácil.
"Uma vida perfeita não era? Era o que estavas a pensar? Onde sem esforço tive tudo, sem problemas. Onde não houve dor nem sacrifício, onde não houve espaço para desespero nem medo. Onde o amanhã era certo, onde era livre. Era? Era isso que pensavas? Pensavas que estes que se atiram à linha, os que desistem, esses é que são corajosos? Não... Eu! Eu é que sou corajoso! Eu que enfrento o diabo no corpo a tentar-me todo o dia, eu que me deito e sonho pesados pesadelos com a morte lenta que me infligiram! Eles que se endividaram e agora não pagam, acham eles que isso é alguma coisa? Acham que isso é alguma prisão? Um banco? Uma idade e uma falta de formação que lhes nega emprego? Um filho que chora de fome? É por isso que se matam?

Isso é liberdade. É uma vida normal que toda a gente tem, uma preocupação que a todos destrói, uma dificuldade que a todos deprime.
Prisão é nós dentro de nós mesmos. É uma cabeça funcional destruída que constantemente deseja sabotar o corpo, a vida, a existência, quem nos rodeia quem nos ama quem nos ajuda quem o nosso bem deseja.
Prisão é termos de prender, todos os dias, todos os momentos, um diabo que nos rompe o âmago para comer ferozmente o que de bom existe e depois, rindo sadicamente do rasgado e sangrado coração batendo as suas últimas convulsões lhe permite encher-se de remorsos.
Prisão sou eu.

Passou-lhe momentos depois pela mente o desconhecido suicida. Não lhe parecia agora uma saída tão descabida quanto isso. Até que ponto era mais aceitável massacrar-se até ao fim dos seus miseráveis dias, quando podia, num momento, salvar-se a si e aos outros mais desilusões, fracassos, dor.
Os carris, apesar do seu apelo naquele momento, estavam fora de questão. Sabia bem que a maioria não morre, fica inútil para o resto das suas vidas, pesos para familiares. Continuou a sua viagem de descoberta e hipotética salvação tentando ignorar esta morbidade. Viu cidades e vilas, campos e montanhas, planicies e lagos, até chegar à costa.

O mar é uma força terrivelmente atraente. Sentado num rochedo à beira do topo do Cabo, olhava à sua volta: mar e mar rodeavam o horizonte, a terra nas suas costas, o som das ondas impondo a sua presença nas rochas por baixo. Deixou-se enternecer pelo voo das gaivotas que por ali esvoaçavam, procurando comida para o dia. Simples vidas, belas.
Levantou-se, todo o continente estava nas suas costas empurrando-o para o abismo que, animadas ondas, o esperava ansiosamente. Era o fim da sua vida, iria teatralmente; pelo menos o fim da sua vida seria digno.

Como muitos, a coragem escondeu-se no momento decisivo.

Com o tempo a vergonha da cobardia substitui-se com o orgulho da sobrevivência. Recompôs a vida, aos poucos e no que pode, voltou à vida. Não regressou porém. Há sítios que são fantasmas que não é prudente acordar, e a sua pátria tornou-se o fim do mundo europeu, onde a cobardia pela vida o salvou da coragem da morte.

Saturday, December 29, 2012

Prendas

Ela, como todos, perdia os dias na eterna procrastinação dos facebooks e tweeters, sentindo a profunda culpa que sempre acompanha qualquer jovem desempregado que vê a vida passar-lhe à frente num estranho e inédito misto de desperdício provocado alheiamente e, simultaneamente, por si mesma.

Quão ridícula era, pensava para si, sempre que mais um dia chegava ao fim e nada de produtivo tinha sido conseguido. Não que não tivesse coisas para fazer, afinal, ser desempregado é um trabalho a tempo inteiro sempre lhe disseram e ela, como os outros, tinha de trabalhar para ter trabalho. E ela tentava, todos os dias, ela tentava. Acordava perto das onze, o suficiente para ser antes de almoço e não ter aquele sentimento que metade do dia já tinha sido morto num sono vazio de sonhos reais. Levantava-se e ligava o computador, ia agarrar na taça de cereais e a mescla de fibras ia lá para dentro. Diziam na televisão, desde que ela se lembra, nos anúncios, que aquela coisa sem sabor, desagradável, vazia bem à linha. E ela, normal e nada de peso a mais, preocupava-se sempre com isso, era até já coisa inconsciente sabem? uma mulher tem de cuidar de si, e lá engulfava colheradas daquela coisa meio dura meio mole enquanto o computador não se dignava a abrir. Despachada da tortura alimentar, uma maçã para alguma coisa saborosa tocar-lhe as paredes do estomago enquanto abria o facebook. E quando dava por ela, já o dia tinha passado. Nem o pijama saia há já 3 dias.

Hoje seria diferente. Iria tentar e conseguir fazer algo. Deixou a sua decisão explicita no facebook e orgulhosa foi tratar de mudar a vida! Tomou banho, vestiu-se, pôs umas cuecas confortáveis, calças de ganga por cima dos collants, t-shirt camisa malha e o casaco de que tanto gostava, vermelho, figurão lindíssimo nas cores moribundas do inverno; aconchegou o cachecol de dimensões absurdamente gigantescas e o seu gorro com orelhas. Saiu.

Passeou pelo frio, olhou pelas montras para roupas baratíssimas, coisas boas das crises do neo-liberalismo e dos pobres asiáticos escravizados. Uma mulher digna desse nome não é só superficialidade, por isso obrigou-se a visitar a livraria. Desde pequena que lia, sempre tinha gostado. Se lhe perguntassem um bom livro que tivesse lido, diria de imediato Eça de Queirós. Não gostava, mas era o que sabia ser melhor, a sua cultura pouco mais ia do que esse, e envergonhava-se de morte de confessar ter em casa, depois de lidos avidamente, toda aquela mediocridade literária sem interesse, profundidade, inteligência ou valor que, ironias da vida, vendia ao milhares e milhões devido à sua constante menção à sexualidade feminina. Pornografia mental para mulheres, ouvira uma vez um idoso crítico de literatura dizer; mentira claro, alguma vez ela leria algo tão mau! mas sim, o que lhe dava mais prazer naqueles livros eram de facto o vai não vai do sexo escrito.

As ruas enfeitadas para o natal tinham uma beleza singular. Bom, não, não tinham, mas estavam diferentes e o nosso cérebro farta-se das memórias que tem e do que recorrentemente vê, daí ser-lhe alegre as luzes amarelas, vermelhas e verdes que por todo o lado se acenderiam mal o sol abandonasse o dia. Pessoas tristes pela progressiva pobreza em que se viam mergulhadas rodeavam-na, todos numa espécie de suicídio financeiro colectivo gastando o pouco que tinham para satisfação de um consumismo que também ele se arrastava pela eminência da morte, num ambiente de inevitabilidade evitável.

Recebe uma mensagem no telemóvel (um daqueles bonitos e da moda, com um ecrã onde se toca como o seu falecido avó costumava dizer; isto antes de o fígado e estômago, bem tratado pelos anos de petiscos e vinhaças, lhe cancelarem a vida) de um antigo amigo. Antigo porque para quem pouco ou nada sai, para quem não tem dinheiro para festas e jantares, e enfim, se refugia em casa, são os únicos amigos que se têm. "Bom dia! Hoje queres ir beber um café ou assim?" estranha coincidência, lembrar-se de isto quando ela por acaso, quem diria! até tinha saído de casa. "oi! pod ser. kerx ir ond?"como é que ele estaria? será que estaria muito mudado? a última vez que o vira andava ele ainda na faculdade, a tirar gestão ou que era, uma coisa assim daquelas dos dinheiros e empresas. Devia estar bem na vida pensou! "esses é que estão bem na vida, ali, a viver à conta do trabalho dos outros. Mandam e os outros trabalham. Chulice". Nunca tinha trabalhado na vida. Pelo menos nunca tinha trabalhado a sério, daqueles trabalhos que custam, em que uma pessoa só não se vai embora porque o dinheiro, na realidade, faz mesmo falta e não vêm de outro lugar que não do suor e sangue.

Era um rapaz até bonito, este. Quer dizer, bonito... era popular. Tinha um não sei quê, um carisma, era diferente. Ela e o resto das miúdas da turminha dele, na altura em que ainda andavam na escola, falseavam-se umas às outras, traiam-se umas às outras, viborizavam-se por ele: era esse tipo de rapaz.

Confessou a si mesma naquele momento que, para ser sincera (felizmente nisto não o seria para ninguém e este pensamento era seu) ele não era bonito. Nem tinha carisma, era um idiota. Mas talvez a confiança que transbordava dele e as boas famílias de quem descendia ajudavam à beleza masculina do rapaz. Isso e ser invejada por todas as outras se conseguisse agarra-lo

Como é que estaria agora? bem que se lixe, sempre era melhor sair com alguém, a algum lado, do que estar em casa, sozinha, a entediar-se até descer aos gatos e cães na internet. "eu estou pela baixa... se quiseres combinamos algum sítio e vais lá ter, que dizes?" "okix. daki a 20min no starbucks? o do largo". Mal enviou a mensagem, ele responde-lhe. Era rápido o rapaz. "ok! lá a esperarei minha cara ;)". E atrevido. Anda atrevido, e rápido. Parece que pelo menos algumas coisas não mudaram com a idade, pensou ela. Pensou também que "espero bem que não se ponha com grandes ideias. Assim do nada, feito cabrãozinho. Ah, 'tás cá com uma sorte meu menino, deves pensar que sou uma vadia como aquelas que deves sacar sempre que sais!".

Quando chegou ao café, já ele lá estava. Sentado, calmo, parecia escrever qualquer coisa num caderno com capa de cor azul. Escrevia com uma caneta daquelas normalissimas, uma bic laranja. A julgar pela caneta, perdera as manias de grandeza. Vestia-se bem. Isto se julgarmos que bem é semelhante ao que também usamos e, por extensão do nosso próprio eu, aquele bem é o correcto e mais belo.

Pela postura mantinha também o encantador carisma que o caracterizava em adolescente. Relachado mas não abandalhado, com uma perna por cima do joelho, sapatos bonitos, uma malha preta por cima da camisa cinzenta. Sobre o braço da poltrona descansava o sobretudo daqueles que agora se usavam, compridos mas sem serem absurdamente grandes como os da idade do seu pai usavam.

"Olá! Tudo bem?" cumprimentou-o quando ao aproximar-se da sua mesa ele se apercebeu da sua presença e levantou devagar a cabeça. "Tudo óptimo! agora que finalmente aqui está a tua presença, não podia estar melhor" disse-lhe com um sorriso contido mas algo atrevido.  "O cabrão anda mesmo a ver o que consegue de mim!" pensou, enquanto respondia "estamos todos simpáticos estou a ver" sorrindo também. "já cá estavas à muito tempo?" perguntou ela sabendo que, de propósito, se tinha atrasado cerca de 20 minutos. Perdera tempo a olhar para tudo e mais alguma coisa, só para não parecer desejosa de o ver. Não que houvesse interesse algum da parte dela e quisesse mascarar alguma intenção, simplesmente habituara-se a fazer-se de difícil. "sim, desde que disse que cá chegava, mas não faz mal, estava aqui entretido, como vês. não te preocupes" e deu uma pequena risada sincera. "estás gira rapariga! já não te via há imenso tempo mas parece que ainda bem, que a surpresa assim foi bem agradável!" tinha de confessar que apesar de claramente atrevido, era agradável ouvir estas amabilidades.

Conversaram. Bastante até. O rapazolas revelou-se algo diferente do que ela pensava que encontraria. Estava a trabalhar numa empresa do pai, mas não por especial favor. Andara desempregado algum tempo como ela estava agora, nas injustiças da sociedade moderna, e portanto percebia-a bem. Estava a saber-lhe bem conversar com alguém que sem moralidades sabia o que ela estava a passar, numa palavra ele compreendia-a. Ficou a saber que trabalhara aqui e ali, umas vezes pago outras não, a história que se repetia por toda a gente que ela conhecia. Queixava-se, revoltava-se, quem a ouvia era a pessoa mais sacrificada do mundo, e isto tudo conseguindo a proeza de nunca ter feito nada de decente a troco de dinheiro, de um ordenado, de um meio de subsistência. Conhecia o dinheiro a entrar na conta através das transferências que os pais faziam para si, o que não a impedia de saber melhor que ninguém que o dinheiro devia ser usado para isto e aquilo, que a vida era para viver e que contar tostões não é uma existência digna.

Oh deuses, tanto que conversaram. Mais ela do que ele, era bom ouvinte, sabia bem a presença dele. E a vida, através das chapadas que nos dão, moldaram uma pessoa interessante. Especialmente quando pediu desculpa para ir à casa de banho e ao levantar-se deu para perceber que aquele corpo era trabalhado. Que agradável surpresa aquela companhia se revelara.

Sozinha, olhando para as pessoas que a acompanhavam na sala do café, encantou-se com a mediocridade do lugar onde vivia. Gordas a olhar para os bolos, palhaços vestidos de calças às cores, gorros negros e camisas de flanela, com óculos da moda por terem estado na moda à mais de 40 anos atrás, vaquinhas (eram umas ordinárias, ela sabia-o, estava-lhes na cara e na roupa, nos cabelos pintados de loiro esticados à maquina durante sabe deus quanto tempo e roupas apertadíssimas) tirando fotos nos telemóveis para porem no facebook, estudantes a estudar no sitio com mais barulho que poderiam encontrar, etc. Estava rodeada de um manancial de amostras de idiotice humana. Ali ficou, sem nada fazer, durante uns 4 ou 6 minutos que ele demorou a fazer o seu serviço.

Quando ele continuou com as amabilidades, ela começou a aos poucos ceder à vontade de continuar a ouvi-lo. Sabia bem, ela era livre, podia ouvir o que lhe dissessem sem culpas. Não ia conseguir nada, mas ele que tentasse, afinal de contas mulher que é mulher gosta de homens atrás. Mulher sem atenção ou é feia ou gorda, e a julgar pela quantidade de tempo à que não tinha atenção real e verdadeira, estava a caminhar para horripilante.

E foi gostando nos tempos que se seguiram. Começou a sair mais, muitas das vezes com ele, viveu um pouco. Não que gostasse dele, e química era algo que também não abundava, mas davam-se bem, ela estava sozinha, este até era honesto e sincero, sabia com o que contava ele não a magoaria muito, pelo menos de propósito, sabia-lhe bem a atenção, ele tratava-a bem "e vocês não imaginam o cavalheiro que ele é, príncipe encantado mesmo, não estou a dizer que os vossos namorados não são bons mas juro-vos que adoravam um homem como deve ser como ele".
Mais importante que isso, quando ao fim de três semanas a haver algo, quando ela já não seria aos olhos de todos os outros uma pêga, caramba o homem sabia mexer-se na cama. Mas sabia mesmo. E destes não há muitos por aí. Ou isso lhe diziam as amigas, que tinham muito mais experiência que ela (pelo menos era o que gostava de pensar, iludia-se acreditando ser mais digna assim. Coisas de criança crescida, que há a fazer?). A descoberta da intimidade entre os dois deu-se pouco depois do natal, e a modos que foi uma prenda simpática de um ao outro. Foram felizes durante aqueles momentos, e o deprimente mundo que os aguardava fora da janela deixou de se fazer notar quando os olhos se fechavam de prazer entre sorrisos cúmplices.

Foi com alguma surpresa que descobriu que tinha tudo acabado. Não que tivesse começado o que quer que seja, pelo menos oficialmente, mas ela merecia respeito. Não andava metida com mais nenhum (pelo menos não fisicamente, as conversas e insinuações ainda não são imoralidades) portanto ele também não devia andar. Havia algo entre eles, ele devia respeitar isso, devia respeitá-la, ele era dela. Ou deveria ser, porque a coisa estava bem, cada vez se conheciam melhor, não era aquele o caminho que deveria ter sido seguido! Não era, com toda a certeza, o que ela esperara. O mais desconcertante foram as razões dele.

"só podes estar a brincar comigo, tu tens noção de quem és?!" mais do que toda a gente, tinha de certeza. Vivia com ela mesma à anos, sabia bem o valor que tinha. Que era muito. Não por nenhuma razão em especial, mas ela era ela, e por isso, valia mais que as outras. A sorte que ele tinha em ela ter-lhe dado atenção, e agora ele dizia-lhe uma coisa destas? "diz-me lá que raio tens tu para se poder gostar de ti? diz! estás assim tão surpreendida porquê? és mimada, esperas tudo do mundo sem te mexer para nada, todos te devem e ninguém te paga, mesmo que nunca tenhas concretizado o que quer que seja! lamechice e lamechice, pieguice atrás de pieguice, mas eu por acaso sou teu namorado ou pai para te aturar estas merdas?", "tu respeita-me!". O cavalheiro, príncipe em cavalo branco, virou crápula. "respeito-te? o respeito conquista-se, não se ganha, por artes mágicas, só por teres mamas. Quem é que pensas que és? esse teu feitio de merda, sempre com superioridades morais e intelectuais sem saberes o que quer que seja, grunha como és, uma falhada, preguiçosa, escrava de vontades e desejos, casca de vida sem sentido, queres que respeite o quê? respeito-te a humanidade que tens por teres dois braços e duas pernas, uma cabeça que podia pensar e um coração que bate." O role de insultos não parava, metade deles ela nem os percebia mas pelo tom eram ofensivos. "Cala-te!" gritava, histérica, sem saber o que fazer nem responder nem pensar, de tão apanhada de surpresa que estava. Gritava e batia-lhe (vá.. tentava, bater não era capaz que ele agarra-lhe os pulsos). "Estás a magoar-me! larga-me!" gritava enquanto continuava a tentar bater-lhe.

Levou algum tempo até perceber que ele, apesar da crueza das palavras, tinha razão. Ela realmente não sabia nada. Nunca tinha feito nada decente. Nunca tinha inventado nada. Nunca tinha conquistado nada, nunca tinha lutado por nada, nunca tinha pensado nada por ela, alimentava-lhe o espírito opiniões e conceitos dados por outras mentes. Não era minimamente culta. Não tinha vontade própria, deixava-se guiar pelas suas vontades mais imediatas sem qualquer objectivo de vida definido a longo prazo. Vivia um dia de cada vez, na dormência do tédio deprimido.
E, confessava a si mesma, enrolada no sofá a ver séries, que realmente se considerava melhor que os outros. Lembrara-se do dia no café em que ela, de cabelo liso e vestida para impressionar, criticava mentalmente todos os que a rodeavam. As criticas ácidas que fermentaram na sua mente nesse dia aplicavam-se quase todas a ela mesma. Ela era apenas mais uma absurda no meio do teatral festival do ridículo humano.

A verdade doí-lhe. E como qualquer pessoa, queria fugir da dor.

Mudaria. Amanhã ia largar esta ausência de existência, ia fazer algo, ia procurar trabalho, diabos, ia até criar o seu trabalho! falam tanto disso na televisão, deve ser possível, tem de ser possível! Se a montanha não vem a Maomet, vai Maomet à montanha! Os seus claros defeitos, as suas falhas, iam desaparecer, e ele ia ver o que tinha perdido! Ah! ele ia ver! ia quere-la outra vez e aí, seu momento de glória eterno, ela ia mandá-lo para trás. Quem ri por último, ri tão melhor.

Amanhã.

O amanhã chegou, e com ele a tentação. Como sempre acontece com os fracos de espírito ela cedeu. As dificuldades apareceram, os planos falharam, os medos cresceram, a impotência impôs-se, os sonhos morreram.
 Não tardou muito a voltar a ser si mesma, tal como era antes daquele terno presente de natal.

Thursday, November 18, 2010

"RAAAAAAAAAAAAAGEEE ...oh wait, my daddy's on the phone"

Era um salvador
Usava cabelo rapado, lavado, sempre impecavelmente apresentável no seu visual anárquico-rebelde, figura de respeito na sociedade escondida que criara.
Defendia com orgulho a sua pátria, e ostentava com gosto a ofensa de racista de que o acusavam. Defendia os seus direitos e o de seus compatriotas, roubados agora e desejados desde sempre por aquela corja imigrante que seca o tesouro nacional que o seu povo arrecadara ao longo dos séculos.
Defendia-a contra todos: os imigrantes pobres que viviam todos à conta do Estado e os imigrantes ricos que roubavam os cargos de glória das grandes empresas e auferiam os bons ordenados que pertenciam por direito adquirido à nascença à raça superior a que ele pertencia.

Piores que cães, esses imigrantes

Toda essa gentinha do seu próprio pais que falava que o valor das pessoas consistia na sua competência e capacidade, que defendia que essa praga invasiva era igual a si e aos seus, que éramos todos iguais, que já não existiam "nações", existiam pessoas, Traidores. Arraçados de merda, gente fraca sem recuperação a quem esperava o mesmo destino fatal que os insectos estrangeiros na gloriosa nova nação que o exército da sua nova sociedade criará.

"Serão o espelho de um novo império romano, organizados, fortes, cruéis ao seu inimigo!" dizia ele para si mesmo.
A integração era simples; o coepi (iniciado) tem de acima de tudo demonstrar a sua pureza ideológica, a profundidade da crença na nova sociedade. Para tal, terá de organizar e concretizar o rapto de um aduenam (imigrante), espancá-lo, tratá-lo e após a sua recuperação e criação de laço emocional, erradicá-lo. Se ao fim de dois meses o processo for completado satisfatoriamente e o coepi não for descoberto pelas autoridades opressoras que regem a nossa sagrada Nação, o coepi passa o ritu ignis e é aceite nos braços fraternais deste nosso Salutem Regni como um orgulhoso Miles.
Apesar da inexistência de uma educação académica erudita, e da escassez de livros já assimilados, ele era genial. Sabia-o, era genial. Só um génio poderia ver a podridão do mundo trazida pelos imigrantes, e apenas um génio poderia organizar o seu exército como ele:
Dois Praepositus por ramo, divididos em Exercitus (o grosso do exército, constituida por Miles para combate em larga escala), Sapientia (responsáveis pela propaganda e trabalho de bastidores, constituíam também os serviços secretos através dos Procuratores), Ordo (toda a logistica necessária ao surgimento e manutenção da nova Nação, encarregue aos Plaustro) e Opera Latet (grupos de elite para missões de maior risco e necessidade de imperativo sucesso, constituida por Serpens Militi). Ele próprio era o Praepositus da sua Praesidio Personas Honore, que viveria isolada do resto do mundo para sua proteção e impossibilidade de corrupção.

Era genial, criara a sua sociedade maravilha no isolamento do seu quarto em quatro semanas apenas. Quando se deslocava, eram sempre em escolta, com 3 carros e duas motas, do mesmo modo que vira uma vez a policia fazer, e eles deviam saber o que faziam. Isso dava um ar competente e importante. Era assim que se fazia transportar para o Senatus, onde mensalmente tocavam bandas de superioridade intelectual que exaltavam a ideologia magnifica do seu Populi, onde bebiam cerveja nacional e "confraternizavam" e escutavam os seus Orationes. Num dos seus mais marcantes monólogos, dizia:

"Meus irmãos e irmãs, todos sentimos o aproximar da manhã resplandecente em que o sol dos nossos ideais queimará para o Inferno a praga que pilha a nossa Pátria! Perto está o dealbar da nossa ascenção à salvação do Futuro dos nossos filhos e prole, do nosso lugar na História, da glória divina da nossa superioridade, da nossa independência intelec... um momento, o meu pai está-me a telefonar. Estou sim papá? Sim. Sim. Sim. Ok eu meto o lixo no lixo. Ok eu lavo a loiça. Sim.. sim tá bem eu arrumo o quarto, agora não posso falar.. também gosto muito de ti papá... olha depois mete-me dinheiro na conta ok? adoro-te! ...ual!"


P.S.: se não compreendeu nem a ridícula e triste absurdeza de qualquer pensamento xenófobo e/ou racista, nem a ironia de todo o texto, releia. Caso continue a não compreender, inscreva-se numa escola perto de si para tentar criar na sua pessoa a educação e tolerância que a sua família e meio social não lhe proporcionaram. Caso falhe, lamento a sua infantil estupidez crónica.

Tuesday, September 28, 2010

Anonymous

Frank Sinatra no quarto pelo ar, Glenfiddich no copo, Armani por todo o corpo. Estava entre amigos, reconfortado na pele de Búfalo da poltrona desenhada para si, observava de olhos fechados e cabeça inclinada para trás a sua vida.
Boa viagem.
Aligeirou a gravata de seda, suspirou e fugiu a saudosa lágrima.
Lá fora, pela janela de vidro do tecto ao chão, a cidade pulsava com a vida que ele em breve iria abandonar. Esperava a Morte não natural com a calma nervosa de quem sabe o inevitável, reconfortando-se com a satisfação de ter tudo ao seu alcance para o que é Certo.
As luzes na noite fria de Nova Iorque aqueciam a paisagem de sólidos geométricos coloridos, onde iria ser ignorado por quase todo o mundo o seu feito, a sua morte prematura, o mártir, o seu sacrifício.
Olhou pelo seu Patek Philippe as horas, o adeus estava estranhamente atrasado. Levantou-se e esperou deambulando pela sua carpete persa, admirando uma parede com dois Millets e um Manet.
- A arte é esplendorosa - pensou.
- O Mundo merece-a - pensou.
- A Arte é conhecimento. É cultura. É a possibilidade do ser humano criar e criticar, pensar, de se superar, de entender e, por sua vez, libertar.
- A Cultura é Liberdade.

Porta abriu-se de repente, flashbang. Cai atordoado com barulho e luz, sente apenas o som incompreensível de ordens tácticas esvoaçando pelo último oxigénio que alguma vez respiraria.
vultos
Sente-se preso, movimentos bloquiados: foi apanhado.
Frank Sinatra no quarto, Glenfiddich perdido criminosamente no chão de mogno, Armani destruído pela eficácia policial. Os Homens seguem as ordens que autoridades superiores lhes dão, qual ovelha sem vontade e visão; poltrona pela janela uma chuva de vidro. Segundos depois, a ironia:

"Voa minha pomba branca"

Assim morreu o último Anónimo.



Tuesday, April 06, 2010

My country is a dying whore

     My country is a dying whore. Empresto a frase cinemática para resumir o pedaço de terra a que chamo pátria. Isto é uma palhaçada completa, numa bandalheira, na qual a Grande Porca (como Henrique Medina Carreira tão bem ilustra recorrendo a Rafael Bordalo Pinheiro) se vai divertindo violando-a.

     Nós, humanos, apesar de possuirmos uma personalidade própria, agimos para com o mundo do modo como o mundo age connosco, parece-me ser uma atitude defensiva basilar da sobrevivência humana, e apesar também de este país não tratar os seus cidadãos decentes de um modo minimamente aceitável, eu considero que não tenho como missão existencialista destruir-lhe o futuro como ele tão bem tenta destruir o meu (nosso), mas sim, atitude revestida de preocupação para comigo e para com quem comigo também habita esta terra (essencial a qualquer cidadão), tentar encontrar alternativas para que a Grande Porca use as suas tetas para todos os portugueses, e não para quem demonstra ser bacorinho.

    
Junto-me assim ao coro de vozes revoltosas com a distinção de pensar no que digo antes de largar o bitaique e não possuindo uma agenda própria, já que pessoalmente não me revejo na sociedade actual portuguesa e pretendo viver grande parte da vida longe dela. Tentarei por isso olhar para Portugal como um problema crónico que necessita de uma cura e não um analgésico e penso rápido, que dispensa as as mezinhas e rezas dos antepassados, mas sim as soluções do pensamento crítico possível hoje.

     É-me evidente que em Portugal o Estado é Rei. E contrariamente ao que muita gente pensará, não julgo que isso por si só seja negativo. Da maneira como está implementado hoje é-o certamente, mas na sua essência parece-me até uma lógica positiva. Porque o Estado, Nós, necessitamos de um Estado forte e vigilante, graças à profunda cultura de chico-espertismo que grassa na nossa sociedade. Este é, no entanto, tão vulnerável a esse vírus intelectual como qualquer outra instituição. E isso é necessário combater. E combate-se como? Bom, não possuo resposta milagrosa, muita gente terá certamente uma visão mais correcta que a minha, mas do resultado de uma pequena reflexão surge-me como resposta a imperiosa necessidade de impedir que posições de governo sejam compatíveis com mais tardias recompensas profissionais. Um cargo público tem de ser um cargo de serviço civil, nada mais. Assim, proponho:

1. - Um membro de governo não pode ter qualquer relação com qualquer empresa (pública, privada, público-privada, não interessa) nos 10 anos seguintes à cessação do seu mandato, caso o seu ordenado seja superior ao que auferia enquanto pertencente ao governo.

2. - O ordenado de qualquer membro de governo não pode ser superior a 5 vezes o ordenado mínimo nacional. Parece-me lógico que alguém que governa maioritariamente pessoas que recebem o ordenado mais baixo possível no pais não tenha a estes uma distancia monetária muito superior aos seus súbitos, apenas assim compreende o impacto das decisões que impõe.

3. - Toda e qualquer decisão que implique gastos do erário público necessita de concurso público. Isto quer dizer que não mais existiria qualquer contracto com adjudicação directa. Impede-se assim o desfalque das contas públicas e uma maior igualdade de oportunidades entre a população.

4. - Ser deputado é uma representação parlamentar da opinião pública. Cada deputado representa as decisões e opiniões de toda a população portuguesa, é para e por isso que lá está. Ser deputado portanto é um serviço que obriga a constante modificação de pessoal, pois as pessoas não sabem constantemente o que o povo deseja, nem representa constantemente toda a gente. Parece-me lógico por isso que ninguém possa ser deputado mais de 10 anos. E que o ordenado auferido por estes não possa ser superior a 3 vezes o ordenado mínimo nacional. Isto evita que alguém utilize o cargo de deputado para proveito próprio e não para proveito público, ao fornecer-lhe uma remuneração que não cola com o estilo de vida faustoso a que aquela corja está habituada, obrigando-os a ter profissão declarada, com rendimentos declarados, e usando o cargo de deputado como um extra onde vai servindo a população geral. Não mais se fará de cargos políticos uma carreira profissional. Para reforçar isto, os deputados deixam de ser escolhidos pelo líder do partido politico. Sofrem sufrágio como os próprios lideres, estão sujeitos à escolha pública.

5. - Representar a vontade dos Portugueses é a razão pela qual o parlamento existe, legislar as leis que facilitam e ordenam a vida da população. Faltar a este dever é absurdamente desrespeitoso para com todos. Qualquer deputado que o desrespeite tem assim de ser chamado à responsabilidade desta falha para com o povo português: paga 10% do ordenado por cada vez que falta à assembleia, podendo faltar no máximo 10 vezes. E não existem faltas justificadas nem injustificadas, porque um deputado não é uma criança em idade escolar e se crê possuir o necessário para representar o país, fá-lo em consciência, sabendo que não vai necessitar de faltar ao prometido, seja por que razão for.

6. - O Estado tem actualmente um peso excessivo na sociedade civil na medida em que não gera capital suficiente para fazer frente à despesa. Creio no entanto que não se deve cortar gastos na saúde, na justiça, nos apoios sociais, na educação, na ciência e desenvolvimento. Isto são pilares basilares de qualquer sociedade e economia, quando estes abanam ou caiem, a sociedade destrói-se na base. E nós temo-los quase todos em muito mau estado de conservação. é Por isso essencial o Estado criar novas formas de receitas, e organizar-se para que os serviços funcionem melhor com o que possuem e provavelmente, sejam remunerados. Assim:
    
     6.1 - As escolas necessitam de ser locais onde se aprende. Onde há paz. Onde há igualdade. Casos de ofensas a estas três premissas    sempre existiram, sempre existiram, cabe a quem a governa que as minimize. A disciplina escolar é um monstro que come a educação por dentro. É o primeiro ponto a ser remendado. O professor necessita de ter mais poder, tem de ser o rei e senhor dentro da sala de aula, dota-lo da possibilidade de enviar alunos que não desejem aprender para fora da sala e dar oportunidade aos outros para o fazer. As salas deveriam ser gravadas: serviam de provas em tribunal no caso de alunos desrespeitosos, serviam para averiguar o comportamento dos alunos e assim perceber melhores maneiras de os ajudar/ ensinar, e seriam transmitidas através de canais públicos (youtube, dailymotion, qualquer serviço vídeo na Internet, acessível a grande parte da população) para que não só os professores fossem eles mesmos alvos de avaliação por qualquer português, como serviriam o ensino à distância.
     6.2 - Os Programas necessitam de ser profundamente remodelados. Há muito aluno que não quer estudar porque a escola não interessa. O que isto significa é que não deseja aprender os conhecimentos que lá são dados, mas muito provavelmente gostaria de aprender outros. É assim imperioso que a Escola seja mais prática: ensine carpintaria, mecânica, agricultura, programação, piscicultura e pescas, design web, design gráfico, enfim, matérias que os alunos olhem e percebam que lhes iram ser úteis para fazer alguma coisa da qual possam retirar retorno financeiro, um meio de subsistência. Os alunos, tal como os seus pais e professores, não querem ser miseráveis e pobres, e estar 12 anos numa escola a não saber nada, para nada, não é aliciante para ninguém.
     6.3 - Os professores não podem ser contratados indefinidamente. Um mau professor antigo é pior que um bom novo. Não pode parar no tempo. Tem de se actualizar constantemente, estar a par do que se passa no mundo e ensinar aos seus alunos como sobreviver nele. O professor É o exemplo a seguir, É a sabedoria, É a referencia. A carga burocrática tem de ser portanto mínima para que possa ocupar o tempo a actualizar-se e a pensar em maneiras diferentes de chegar aos alunos, e não pode ter uma situação profissional que lhe permita aconchegar-se a um sitio/ situação e nunca mais se preocupar com a sua própria evolução.
     6.4 - As escolas gastam muito, estão em mau estado e com pouco pessoal. É preciso estudar o que está errado e, depois, poder actuar com consciência de qual tem de ser a solução para o problema.
     6.5 - A saúde idem idem aspas aspas. Os médicos fogem dos hospitais, saltitam para consultórios privados fazendo fortunas. Nada contras fazerem-nas, mas sendo a medicina uma actividade de grande teor humanista, a salvação e apaziguação do sofrimento humano, parece-me lógico que este suplante tudo o resto. Assim, não percebo porque se há-de ocupar camas com pacientes que não vão mais ter qualidade de vida, que não mais se vão curar, que basicamente vivem para sofrer. Permita-se a essas pessoas acabar com a sua vida se assim o desejarem, propiciando-lhes cuidados paliativos se não o desejar. Instaure-se uma forte inspecção médica que minimize a incompetência que infelizmente grassa no nosso sistema de saúde, não se pode permitir por exemplo que médicos tirem o curso e não mais estudem, criando sofrimento com erros que resultam da sua própria ignorância.
     6.6 - É necessária uma educação sobre o sistema de saúde e como utiliza-lo, de modo a que o sistema funcione e não se verifique situações como as urgências a abarrotar de utentes que poderiam ser tratados em clínicas de saúde ou postos médicos.
     6.7 - O sistema Judicial está um caos. É imperativo simplificar as leis, torná-las mais concisas, menos abertas a diferentes interpretações, e inteligentes. O sistema actual pura e simplesmente apenas serve as bestas que delapidam o País.
     6.8 - Existem demasiados apoios sociais. Ou melhor, a sua carga sobre o resto do orçamento de estado é opressivamente grande. Impera reorganizar o sistema de apoio. Como? a minha ignorância não me permite responder, necessitaria de um conhecimento profundo de como se gasta o dinheiro e para depois poder entender como este poderia ser melhor distribuido.

     7. - A economia está de rastos e vai continuar de rastos enquanto a remuneração de referência for um valor que não permite sequer pagar uma renda e comprar comida. O problema da economia portuguesa reside no facto de a sua maioria não ter capacidade de consumir serviços, bens, ou os luxos mais simples. um quarto alugado custa em média 250 euros. Uma casa, sem grande qualidade, cerca de 500 euros. O ordenado mínimo é 475 euros. Não chega sequer para o aluguer de uma habitação. O ordenado mínimo serve de base ao sector privado, não é preciso um génio para compreender o quão absurdo é defender que estes baixem, pois tal só contribui para um afundar mais rápido do País. É que contrariamente a dar grandes somas de dinheiro a algumas pessoas, isto faz com que muita gente possa começar a gastaram possa começar a olear as engrenagens do consumo interno, faça o dinheiro circular dentro do país, faça com que muita gente vá lentamente enriquecendo, já tendo esperança, vá fazendo alguma coisa. Caso contrário, vai-se estar a dar dinheiro a umas poucas grandes companhias que findas as benesses financeiras vão para outro país. São necessários, mas não tão necessários como a população inteira a contribuir para a recuperação económica. Fora o facto de que permitem os governantes encher o bolso com mais dinheiro, desejo eternamente presente em quem tem algum poder. Assim, cerca de 700 euros de ordenado mínimo nacional, como na vizinha Espanha (com a qual partilhamos imensa coisa, como por exemplo um custo de vida semelhante (se não igual) e um preço de combustível mais elevado), permitia já algum desafogo e poupança, evitando miséria mais profunda e despesas em ajudas sociais. Até os governantes passariam a ganhar 3500 euros em vez de 2375 euros. É quase só vantagens.

     8. - Em Portugal não compensa ser produtivo. Não compensa ser competente. Não compensa ser profissional. Regra geral, as chefias não são responsáveis, não têm em mente o crescimento empresarial nem o bem estar dos seus empregados, e isto é um bom e firme passo para não existir. Como exemplo, a Google: horários de trabalho flexíveis, boa alimentação dentro da empresa, salas de descanso, sítios agradáveis de estar (e trabalhar), exigência de resultados. Não é certamente a fórmula mágica para o sucesso, nem se adapta a tudo, mas é um sinal de como se impõe no mercado inteligentemente (e convenhamos, o que a Google fez poderia ser feito nos USA, na França, na Grécia, em Portugal ou na Roménia, o lugar no mundo da web é do que menos importa). Em Portugal, se alguém tem uma ideia melhor que o seu superior hierárquico das duas uma: ou dá um passo para o despedimento por fazer sombra a este, ou vê o seu valor ser roubado sem o mínimo pudor. Isto é claramente errado. Não há empresa assim que seja produtiva, descodificando: a produtividade da maioria dos empregados é esmagada por decisões idiotas dos seus superiores. Esta gente que se vai desemerdando no meio empresarial português sem a mínima preocupação pelos seus erros idiotas e completa irresponsabilidade não pode ser levada a sério. Um dos grandes problemas portugueses é a incompetência das chefias (sejam elas em que profissão forem, em que negócio forem, em que lugar for da escala hierárquica de qualquer empresa). Como mudar as chefias é algo irreal e impossível, a única maneira de contornar este problema, evitá-lo e remendá-lo parece-me ser uma agressiva e forte fiscalização das leis de emprego, também estas necessitadas de profundas mudanças.

     O Portugal de hoje não sobrevive muito mais tempo, não tem condições para sonhar consegui-lo. A curto - médio prazo não tem também grandes condições de o fazer. Resta-nos olhar para o futuro e moldá-lo à sobrevivência. Isto tem de mudar, Nós temos de mudar, sobre risco de não mais sermos nós, não mais sermos coisa alguma. A mudança, essa necessidade eterna e inevitável, peca por tardia, e ou a consciencializamos agora, ou sofremo-la impreparadamente no futuro. Está nas nossas mãos, na geração vigente e na minha, arquitectar um futuro mais brilhante para Portugal. Decisões que nos permitam no futuro existir com condições. Parece-me a mim que a aposta nas energias renováveis é uma boa aposta, servir-nos à para não comprar energia, não estragar o ambiente, para poder vender emissões de carbono, para não ser vitimas dos choques petrolíferos que irão acontecer com cada vez mais recorrência no futuro. Isto no entanto serve-nos enquanto o resto do mundo não se adapta às novas necessidades. É um bom (muito bom) ponto de partida, que deveria até ser mais rápido e reforçado (por exemplo, a obrigatoriedade de todas as novas construções serem energicamente eficientes, não gastando energia, sendo o que se produz em centrais eléctricas energia para venda e industria). Mas isto só não nos permite a sobrevivência, é preciso ver e olhar o mundo para saber o que lhes vender e como nele sobreviver. Isto, a actualidade, é uma guerra pacifica que temos de ganhar sobre risco de sermos vencidos por nós próprios.

Monday, April 05, 2010

It will never stop my dear friends

Eu, André Filipe S. Cabrita, acho piada ao mediatismo que o escândalo dos submarinos está a ter quando comparado com o que freeport e face oculta tiveram, e com o quão no esquecimento caiu o escândalo U. Moderna e Casa Pia. O que alegra é que daqui a pouco tempo, quando mudar o partido governante, outro qualquer escândalo de proporções dantescas nascerá das profundezas da mesquinhice humana, continuando assim o eterno ciclo e podendo assim confiar na politica portuguesa para nunca nos dar um momento de tédio



Friday, March 12, 2010

A vampiresca politica

Dei por mim a pensar que não tinha qualquer legitimidade para criticar os políticos. Para questionar os seus inegáveis erros. Para opinar.
E não tenho, de facto, qualquer legitimidade para tal, pela simples razão de que não sei do que estou a falar. Passo a explicar-me: Eu, enquanto cidadão, tenho todo o direito de questionar quem me governa, pois foi a minha participação enquanto votante que permitiu, através do sufrágio, a eleição (ou não) de tais personagens. No entanto, que sei eu das pessoas que me governam ? Conheço o Primeiro-Ministro, mal e porcamente, ficando-me pela consciencia de que é péssimo engenheiro civil e um tipo aldrabão. Tenho uma vaga ideia de que a Ministra da Educação é, entre outras prováveis coisas que desconheço, autora de livros infanto-juvenis. De resto, verdade seja dita, pouco sabia sobre o assunto.
Como gosto do direito de opinar, e de opinar assertivamente, de modo claro e correcto, dei-me ao trabalho de procurar quem são as personagens que me governam nos vários ministérios.

Assim, posso dizer com legitimidade que não percebo como para Ministra do ambiente e do ordenamento do território, basicamente quem decide a estratégia organizacional do país, está uma senhora cujo currículo é ser engenheira sanitária e principalmente tratar de águas residuais (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dulce_Pássaro), fazendo na minha maneira de pensar muito mais sentido estar lá um arquitecto ou urbanista, já que seriam indivíduos com muito mais formação na área.

Ou porque é uma licenciada em línguas e literaturas modernas a responsável pelo Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, cuja única parte do currículo que se cola a este cargo é ser membro do conselho cientifico do instituto de investigação sobre o emprego numa universidade (http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Helena_André), e não alguém com formação em assistência social. Ou recursos humanos com consciência social. Ou outra área que de facto conheça a fundo, mais que apenas estudos académicos (que por vezes pecam por parcialidade e/ou incapacidade de abarcar os temas na sua completa extensão).

É-me incompreensível como o dirigente do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações tem formação de economista (http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Mendonça). Sendo este um Ministério que trata fundamentalmente das infra-estruturas do país, não faz muito mais sentido que seja coordenado por alguém com formação de engenharia civil? ou planeamento de vias de comunicação? ou algo que tenha de facto a ver com as infra-estruturas físicas do país?!

Ou por exemplo o Ministério da Ciência e Ensino Superior ser um Engenheiro Electrotécnico (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mariano_Gago)? Á partida, este até é um bom exemplo de alguém que está, de facto, como peixe na água. No entanto, o ministério que tutela é tão abrangente que, creio, faria mais sentido ter alguém da área da investigação cientifica (já que conhecerá melhor de certeza as necessidades e dificuldades da ciência em Portugal), com experiência em pedagogia. Ou alguém de áreas do Ensino Superior que tenha no currículo ou participação na vida popular a luta pela melhoria da intelectualidade portuguesa no campo da ciência e educação superior?!

É-me dificílimo de perceber como para Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas vai alguém doutorado em Gestão de Empresas, alguém cuja ligação ao assunto foi ter sido director do Gabinete de Planeamento de Política Agro-Alimentar do Ministério da Agricultura (http://portal.min-agricultura.pt/portal/page/portal/MADRP/PT/servicos/ministerio/mbr_gov/mntr/perfil). É que passa-me pela cabeça a seguinte pergunta: Não estará para o cargo muito mais bem preparado alguém com formação em Engenharia Agrária? Esse pelo menos foi educado para perceber, conhecer e saber trabalhar em duas das áreas de actuação do ministério. Ou em Biologia Marinha, já que pelo menos teriam estudos numa das áreas do ministério (e visto que "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem", que grande parte da nossa população e actividades se encontram perto do mar ou a ele ligado, não julgo ser opinião de todo descabida).

Não compreendo como para ministro dos negócios estrangeiros temos um licenciado em economia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Amado). Não compreendo. Havendo tanta gente no país com canudos de ciência política, de
estudos europeus e relações internacionais (só para falar nas licenciaturas, porque se formos olhar para os mestrados e pós graduações que servem para o cargo, a lista seria bem maior), como vai alguém com aquela experiência profissional para ali?!

Tal como não compreendo porque para Ministro da Administração Interna não está alguém com formação na área das políticas de segurança. Ou ciências policiais. Ou segurança interna. Não é que a formação em Direito (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rui_Pereira) seja completamente desadequada, mas julgo que o lugar dos juristas é outro que não este, nomeadamente na criação de leis aplicáveis e úteis à sociedade. Se não houvesse gente capaz de e formada neste assunto especifico, compreendia-se. Não sendo esse o caso, parece difícil de perceber.

Incrível é ainda a ascensão a Ministro da Defesa Nacional um homem cuja formação e currículo se centra numa licenciatura em história e um doutoramento em Sociologia. Nenhuma experiência na coordenação, manutenção, organização ou actuação de forças armadas, do pessoal com armas, das pessoas que zelam pela estabilidade, segurança e independencia nacional de modo mais "físico". Nada.
Não é claro que para para cargo de tanta responsabilidade é necessário alguém que perceba profundamente do assunto?! Não existe por aí nenhum general, major, comandante ou outro qualquer cargo militar que perceba do assunto e tome as rédeas dos militares!? há assim tanta inexistência de gente competente e responsável nesta área que se tenha de ir buscar alguém que nada tem a ver com o assunto para o coordenar?

Que raio de mensagem se passa ao mundo quando se fazem estas opções? quando se tomam estas decisões?
Não estou a dizer que estas pessoas enunciadas são incompetentes; nunca trabalhei com elas, nunca tive meio de em primeira pessoa poder verificar a sua competencia na area em que estão. Parece-me no entanto que as discrepâncias educacionais entre formação e actividade estatal são tão abismais que denunciam automaticamente que algo está errado. Que "isto", Portugal, não pode dar certo. Que por muito esforço que estas pessoas façam (e aqui dou-lhes o beneficio da duvida de querer acreditar que perdem noites de sono e anos de vida a esforçar-se pelo interesse nacional) pura e simplesmente não estão habilitadas com um conjunto de conhecimentos mínimos a uma satisfatória concretização da tarefa a que foram propostos. E parece-me a mim também que nós, portugueses, na sua larga maioria, não somos merecedores dessa satisfatória concretização pois nem sabemos conscientemente as pessoas que o deviam fazer.

Monday, March 01, 2010

The last dance rarely is the last one.

A música soava pelo salão enquanto entre vários pares dançavam vestidos a rigor, trajadas para um momento social tão banal que apenas o preço das roupas lhe dava alguma dignidade. O clima de declarado engate de meia idade enojada qualquer alma que não desejasse sexo naquele momento. Enquanto se olhavam e tocavam num reles tango, soltavam um ameno diálogo:
- Nunca fui de grandes conversas
- Nunca te quis a conversar
A repulsa atingia ambos. Aquilo era demasiado cliché para qualquer um dos dois.
- Sabes, isto é mau demais.
- Eu sei.
- Não sabes. Soubesses e não participavas neste preliminar que a ninguém satisfaz
- Porque participas então tu?
- Porque me aptece.
Mentira
- Porque te aptece? que raio de resposta?
- Merda de resposta. Que merda de resposta
- Desculpa?
- Não desculpo. Odeio quando me tentam convencer que têm uma dignidade perdida há anos atrás
- Esta lengalenga alguma vez resultou?
- Sempre
- Hoje não é sempre
e sorriu, convencida de que seria a que lhe era superior e saía por cima
- Oh but it is
- para que o inglê?
- Para que as perguntas?
- Para que esta estúpidez?
e agarrando-a pela cintura, atrevidamente perto das nádegas, beijou-a
e ela, após aproveita-lo, recusou-o:
- É preciso atrevimento! - com todo o cinismo que todas as mulheres têm
- É preciso ser hipócrita, sabes tão bem como eu que o queres
- E não páras!
- Porque o faria? sabes que acabas a noite numa cama comigo, antes de abalares envergonhada por mais uma vez foderes contra os principios que os teus paizinhos te ensinaram, também eles hipocritas numa educação que não seguiram
- é que nem mereces resposta
- Não há resposta. É a verdade.
e era
- Olhe, vá-se foder! - disse ao ter de admitir a si p´ropria que a sua segurança e perspicácia pouca margem de manobra lhe davam para o recusar em si.
- Pois vou.

Não foi preciso muito para que ao sair dos seus braços se agarra-se ao alcool colorido que abundava na mesa. Alegre lubrificante mental. A ele bastou-lhe esperar, o isco estava lançado, a raiva da indiferença a que estava a ser submetida não podia passar impune. Ela era mulher, Tinha de ter a última palavra. Bebeda, magoa com a sua inferioridade no momento vivido há pouco, confrontou-o:

- Fica sabendo que
- Voltas-te? ainda não te chegou ouvires o que sabes ser verdade uma só vez?
ela desmanchou-se
- Não tem o direito. Você não tem o direito de me flar assim. de me dizer essas coisas. de ser a besta que foi.
- Eu não tenho o direito de te dizer a verdade?
- ...
agarrou-o.

uma hora depois ele vinha-se para cima dela, com a maior das faltas de respeito.
Quando se cansou, vestiu-se e veio-se embora. Nem um adeus. sozinha, na cama, chorou a sua fraqueza quando ele lhe susurrou:
"só porque querias que me viesse foder".
Jurou com coragem que nunca mais.





Mas ela é humana. Um mês e picos mais tarde, o amigo da amiga fez-lhe a dança do cio. E, novamente, a mesma vergonha que a acompanharáaté à morte. Ele morreu uns dois anos mais tarde, vitima da sida ganha pela sua constante e aventureira estúpidez. É que às vezes quem fode acaba fodido, e ela, por muita vergonha que passe, teve sempre nas mãos a graça do último riso

Fly!

Há alturas na vida em que temos decisões a fazer.
Em que não há tempo para hesitar, dúvidar, pensar sonhar desesperar chorar ou rir. Só agir.

Pensava nestes contratempos pré-suicidio quando olhava as pessoas a apontarem de boca tapada, num misto de choque e desejo pela desgraça alheia que nós, humanos, as eternas bestas, sempre partilhamos. Pessoas. Merda para elas. São elas as culpadas, sempre foram elas as culpadas, elas é que fizeram o meu sofrimento. O Mundo não percebe, não me merece, eu não me mereço. é o fim

As pessoas olharam-na fazer uma caralhada, uma última ofensa, e depois o desfalecimento. Não saltou, não abraçou a morte com coragem. Não há coragem na morte, há o conformismo de não lhe escaparmos. Ninguém morre com coragem, para que fingi-lo? inclinou-se para o nada, de cuecas e uma t-shirt oferecida pela publicidade, com uns alegres bonecos que tornam a situação ridicula. As senhoras gritaram de olhos fechados, os homens viram-na desfazer na calçada portuguesa do século XVIII, rebentando num vermelho-sangue partes da sua pele.

Todos os possiveis lirismos sobre o nosso fim desfazem-se quando encaramos a morte de caras.

Ninguém podia perceber o porque de alguém belo, conhecido, com amigos, "pessoa de bem", quereria acabar assim, aos 19 anos de vida, um promissor futuro. Ninguém podia perceber porque quem a viu, tal como ela, até ai vivia numa infantilidade de cosnciencia. Ninguém até ai tinha crescido para lá da obrigatoriedade de todas as manhãs acordar para um trabalho que lhe pague as contas. Porque as pessoas que, expectantes, assistiram este belo espetaculo, eram "putos e pitas" em corpos demasiado grandes para a sua "idade". Ninguém percebia assim, por ignorancia, que a única coisa que se tinha passado fora a incapacidade de pobre criança encarar o mundo como ele é; podre, desonesto, cínicamente hipócrita e triste na sua completa humanidade. Ela pura e simplesmente cresceu, comeu e não conseguiu engolir o ar que respirou toda a vida. E, na sua enternecedora revolta ganha a uma sociedade errada demais para ser aceite pela mais simplória inteligencia, reagiu como qualquer bebé reage, foge. Mas do mundo so se foge para a morte. Não lhe há escapatória. Agradeceu assim a dádiva da engritude e determinada cagou para o mundo, mandou-o convictamente para o caralho, e estatelou-se no chão ácreditando num depois que nunca aconteceria.

Infeliz o momento em que isto virou mentira, o medo sorriu-lhe maléficamente e o pânico domou a coragem da criatura, sendo seus receios apenas amparados pela pedra que lhe roubou a vida.

Fim.

Tuesday, February 16, 2010

olá WW3

Os politicos são os novos judeus (sem qualquer desrespeito pela religão judaica). O que é algo preocupante: a sua existencia foi um extraordinario pretexto para se coeçarem duas guerras que marcaram profundamente o mundo. Portanto.. pois.

Sunday, November 29, 2009

Ralph Nader said

turn on to politics, or politics will turn on you

Friday, November 13, 2009

Lugar nostálgico este

Gosto de me sentar assim à janela, olhando o céu, aquecendo-me com o suave calor do sol de Outono. Espero o atrasado Inverno aqui, olhando o mar, sentindo-o a lutar com a escarpa que sustem cá em cima. Oiço, entre vagas e gaivotas, Miles Davis, a minha única companhia neste idílico cenário.

Irrompe-me pelas narinas o cheiro a maresia e alecrim da flora mediterranea, aquecem-me a alama na sua calma e previsibilidade, na sua confiança de que sempre lá estarão para me satisfazer.

Lugar nostálgico este.

Relembro com alegria os meus momentos de ouro, guardados e agarrados com as minhas prenes garras emocionais, com toda a força a tudo o que me é mais querido. Relembro.

Sorrio, fecho os olhos e oiço este paraiso, enquanto adormeço para não mais acordar.

Thursday, November 12, 2009

damn

what the fuckin' hell is happening with me?!

Sunday, November 01, 2009

yes, did it my way

Há quem viva para ser rico. Para foder. Para fugir. Para qualquer coisa.

e depois, há quem viva para viver. E quem não ouve isto e sente um arrepio na espinha ao compreender completamente o grande Frank, não merece nem de perto nem de longe o meu sincero respeito:

My Way - Frank Sinatra

And now, the end is near, and so I face, the final curtain.
My friend, I'll say it clear,
I'll state my case, of which I'm certain.
I've lived, a life that's full, I've traveled each and every highway.
And more, much more than this,
I did it my way.

Regrets, I've had a few, but then again, too few to mention.
I did, what I had to do, and saw it through, without exemption.
I planned, each charted course, each careful step, along the byway,
and more, much more than this,
I did it my way.

Yes, there were times, I'm sure you knew,
When I bit off, more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up, and spit it out.
I faced it all, and I stood tall,
and did it my way.

I've loved, I've laughed and cried,
I've had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside, I find it all so amusing.
To think, I did all that, and may I say --- not in a shy way,
"Oh no, oh no not me,
I did it my way".

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things, he truly feels,
And not the words, of one who kneels.
The record shows, I took the blows ---
And did it my way!

I did it my way.

Thursday, October 15, 2009

Narciso

"quando aqueles que me rodeiam não concordam com o que penso, digo ou faço, o tempo encarrega-se de cruelmente explicar o seu ignorante erro."
(Obg A. por recordares o esboço)

Friday, October 02, 2009

Fallout

Entretia-me com o gosto do chá e escrevinhando no moleskine, iluminado pelo candeeiro kitch com abajur de flores rosa de vidro, acompanhado por uma doentia discussão familiar na mesa vizinha e pela música calma que me inspirava o momento através do iPod, deitando no papel banalidades sem grande nexo ou interesse, dando mais atenção aos veios da mesa de um belo mármore branco do que ao chorrilho de idiotices que ia transmitindo ao mundo através da escrita.
Gostava destas tardes, sozinho, numa solidão provocada e desejada, onde eu era eu para mim, quandopodia dar-me atenção, não perturbado por ninguém nem nada, fechado no meu mundo, minha zona de conforto, meu Lugar, minha casa mental.
Perdia-me me mim.
Amava-me mais profundamente do que na altura poderia perceber, a idade a tal ainda não dava direito, inexperiente inocência que tanta saudade me provoca.
Olhava-me magro pelas longas mangas do pólo, tamanho acima do meu, exagerado na proporção, preço e despreocupação com que tinha sido escolhido.
Nunca fui individuo de imagem, nunca o quis ser, talvez por inabilidade ou facilidade.
Quando o mármore perdeu seus segredos, a minha atenção procurou outra vitima.
A discussão continuava, amarga e desagradavél, para meu grande deleite. Não sei porque me divertia os problemas alheios, nem o que poderia ter de divertido uns avós raivosos com a filha mãe-adolescente a quem a vida, sem surpresa, não teria corrido da melhor forma. Nem o quão engraçado pudesse ser a culpa indeclarada que a mesma mãe punha no seu filho, infantil ainda nos seus 7 anos de idade, suficientes para compreenderque ele era o erro de não sabe o quê. Gargalhada interior e maliciosa libertei no meu inconsciente à irresponsavel criancice sexual da jovem mãe. Mas não compreendia a minha crueldade, do mesmo modo que não compreendia porque naquele quente dia de Outono as folhas tinham de deixar de cair.
Após o estrondo, após a luz, após a onda de choque, a poeira e o som, o cogumelo de fumo e fogo que apenas subentendi, a destruição. Não mais tive tempo para mim, nem para o meu chá de tilia, para a familia disfuncional ou o meu disfuncional feitio.
O inicio do fim dá-nos tempo para apenas duas coisas: Morrer de imediato ou devagar.

Wednesday, September 23, 2009

O Pais das Maravilhas

De facto, a riqueza de um pais faz-se pelas PME's, é aqui que grande parte da riqueza de um pais é criada, e portanto, é aqui que reside o backbone de uma nação. No entanto, de nada serve alimentar este pequeno monstrinho, já que o problema estrutural de Portugal (e provavelmente do mundo) reside precisamente no modo como as pequenas e médias empresas funcionam ou, melhor dizendo, como a riqueza que geram é distribuida. É inegável a qualquer trabalhador portugues as quantidades ridiculas de vezes em que se é explorado no trabalho, tal como é ridicula a quantidade de vezes em que os mesmos patrões que se dizem tão defensores de uma igualdade, de uma maior distribuição da riqueza, de uma maior igualdade, de toda e qualquer patranha igualitária dita apenas para compaixão do próximo e aumento do seu mesmo capital sejam depois na realidade os que mais exploram o proletariado. O País é, e será sempre pobre, pois a grande massa populacional não tem meios de subsistencia decentes. O patronato desejará sempre pagar o ordenado minimo, independentemente da ocupação do seu trabalhador/ suburdinado, isto é regra em todo e qualquer meio de trabalho, e só não paga menos porque não pode. Haverá ainda os que "podem" pagar menos, arriscando-se a sofrer com uma fiscalização laboral que não existe, permitindo um misto de escravatura remunerada com desespero salarial em que grande parte da população vive (basta perguntar a um empregado de café ou restaurante quanto ganha para de imediato se perceber a sacanice nacional em que todos ocorremos e ocorreriamos se na pele do Patrão estivessemos). Isto não pode no entanto ser criticavel, pois como já disse acima, na mesma situação todos agiriamos do mesmo modo; é caractristico do ser humano não ser alturista, e por isso sempre desejamos mais para nós em vez de o melhor para todos. Parece-me assim claro que o melhor para todos não pode ser lago deixado às regras do mercado, não se pode esperar que este seja digno para com o ser humano e se auto-regule, não se pode esperar que a bondade humana impere no mundo empresarial. Urge por isso a necessidade de penosas punições para quem não cumpre a lei, para quem não remunera consuante o trabalho em questao e para quem falta aos cumprimentos: é a base de um estado de direito em que de facto as pessoas trabalham para viver, e não sobreviver mal e porcamente.

As PME's vivem actualmente, de facto, periodo negro, a "Crise", monstro constante no imaginario portugues desde que me lembro (a sua raiz está talvez em 1700 e qualquer coisa) destroi a inciativa privada desde sempre. O curioso é que apesar disso há sempre empresas e companhias que conseguem ainda assim criar lucro e sobreviver, muitas até lucros espantosos (quem diria, em portugal!). No entanto a principal workforce vive no tal ordenado minimo. Que por sinal, nem para mandar cantar um cego chega. E que por sinal é ganho num qualquer trabalho enfadonho mas de imperativa importancia, desde as 8h até as 5h, com uma hora de almoço. Enquanto estas pessoas, esta basilar força motriz, não tiver condiçoes para comprar casa, ter carro, comer carne e peixe quando quiser, ir ao cafe, sair com os amigos, etc etc etc, nunca nada vai andar bem, pois não haverá uma quantidade suficiente de pessoas a pagar luxos, consumo, que permita a existencia de ainda mais empresas, ainda mais serviços, de uma economia. A ocorrencia de gestores e semelhantes gurus empresariais parece.me a mim a maior idiotice à face da terra, desde o seu "nascimento" as mepresas cresceram exponencialmente em termos de lucro mas à custa do assassinio da economia. Enquanto que uma empresa ganha incomensuravelmente por pagar uma miseria a grande parte dos seus trabalhadores e uma fortuna as sanguessugas que decidem estas politicas, a sociedade no geral ressente-se por a pequena elite gerar fortuna que guarda em bancos e ocasionalmente gasta em putas e vinho verde e a granda maioria trabalhadora mal ter capital para pagar a gasolina casa e comida. ISto não sustenta um pais. Nunca sustentou, nunca sustentará. A única coisa que, ao longo de milénios, este tipo de Feudalismo criou foram profundas desigualdades sociais e atritos entre classes sociais, resultando invevitavelmente em revoluçoes e golpes de estado e outras brincadeiras que em nada ajudam aum desenvolvimento humano continuo e fluido. Aliás, esta idiotice geral tem tido como absurdo resultado uma criação continua de tecnologia de guerra que é depois aproveitada pela sociedade civil.

Parece-me assim que uma resolução incrivel simples para este problema poderia ser atingida com uma medida, apenas uma, que a ser implementada e fiscalizada para que de facto acontece-se, resolveria grande parte dos dramas sociais que hoje vemos. O maior ordenado dentro de uma companhia, seja ela qual for, de que ramo for, pública ou privada, não interessa, poderia apenas ser 5 vezes superior ao mais baixo. E isto com todas as aldrabices que se costuma fazer (telemoveis e carro e casas pagas por empresa, bonus de produtividade e essas mordomias todas). Por exemplo, o mais miseravel so ganhava 1000€. pois bem, o patrão só poderia ganhar 5000€. Como patrão algum só quer ganhar 5000€, quando subia o seu subiria também o dos seus subordinados. e assim o gap entre ricos e pobres (que e afinal o centro da discordia) reduziria-se. o Dinheiro teria mais valor. Seria mais bem aproveitado, existiria mior quantidade a mudar de maos para maos, mais zé povinho a gastar e mais zé povinho a ganhar, mais patronato a ter onde gastar fortunas e mais fortunas a serem geradas. Após esta pequena medida simples de se controlar e vigiar estar em prática, após estar assegurada uma mais justa divizão do capital pelas PME's (e grandes empresas, isto serve para todas), está-se então em condições de dar ajudas monetárias às PME's para que estas cresçam, ao invés de apenas crescer o bolso dos conselhos de administração e patronato.

Simples não é?

Friday, August 21, 2009

criancices

afastas quem te quer, queres quem te afasta. estúpido rapaz, és estúpido

Mais forte que eu

Sofro sempre com a tua ausencia, sofro mais com a tua presença; não és nem foste, nunca serás, tão boa como eu. Sabemos ambos que se as pessoas estivessem categorizadas em patamares tu estarias num qualquer inferior ao meu, fui sou e serei sempre superior a ti, poucas vezes roçaste o meu mais baixo momento de glória. Não é Ego elevado, não é alienação do que me rodeia, é simplesmente mediocridade tua.

E, mesmo assim, encantas-me. Não percebo como, nem sequer porquê, mas tu és algo superior ao meu bom senso. Por mais que racionalize, sobrepões-te: não és Bela, não tens um invejável físico, não tens uma adorável personalidade, não te preocupas com quem quer que seja a não ser tu própria, és basicamente uma besta. Mau ser humano, não chegas a ser sequer pessoa. Por mim, morrias numa valeta, abandonada de qualquer compaixão. Mas quero-te.

Desejo-te de uma modo estúpido, de uma maneira incompreensivel, ridicula, idiota e absurda. Ter-te seria estranho, creio até que triste, mazoquista talvez.

Gostava de ser Grunho. Estúpido mesmo. Pensar como os animais e as pessoas "gaja, bora", "Cona, siga", "é muita boa, tá muita bom". Era fixe. Popular até, numa de puto crescido que ninguém sabe como mas admira pela capacidade incompreensivel de engatar o sexo oposto com estranha facilidade que todo o sexo masculino quer e todo o sexo feminino deseja (viva o mais basico darwinismo)...

A solidão é fodida.

Com tanta gente conhecida. Com tanta coisa vivida. Com tanta memória numa mente incapaz de lembranças, uma pessoa sente-se absurdamente sozinha. Acordas e deitas-te a pensar que toda a tua vida será uma máscara e mentira, uma falsidade cinica que toda a gente aplaude e lembra, critica ou aplaude.
Ninguem gosta ou gostará de ti, toda a gente terá SEMPRE a sua agenda própria, toda a gente quer saber de si e está-se a cagar para o próximo, todos nós criamos o nosso quinhão de sociedade isolada em si mesma, centrada na nossa pessoa. Todos nós conhecemos meio mundo e não conhecemos ninguém, até ao absurdo de não nos conhecermos a nós próprios.

A metafisica é coisa de adolescente, questões existenciais são o dia a dia da nossa juventude e pagode adulto sobre a gerção anterior, mas é na verdade aquilo de que fugimos à medida que crescemos para não nos enfrentarmos a nós mesmos. Pensar na vida e em nós é o mais cruel acto a que nos submetemos, porque é ai que vemos o fracasso de ser humano que somos. Somos niguém, ou melhor, somos todos. Somos iguais ao mundo, não somos ninguém, somos um mesmo produto da educação a que somo submetidos ao longo de anos, uns atrás dos outros, degenerações atrás de degenerações. A mesma caca que eramos à séculos atrás, com as inevitáveis alterações que a tecnologia e conhecimento obrigam. O pensamento filosófico francês é claramente partilhado aqui apesar de o recusar: nós temos a capacidade de o alterar, o ser humano não está condenado a ser um infeliz e cruel ser vivo, nós é que escolhemos assim ser; a sociedade somos nós, e nós escolhemos (por vezes) as acções que cometemos, nós somos (em certa medida) os donos do nosso destino, nós queremos ser uns merdas. Nós não queremos pensar no que fazemos, nós não queremos perceber o que fazemos, nós não queremos ver que caminhamos numa direção linear sem saida onde progressivamente suicidamos a sociedade enquanto estrutura capaz de resistir à prova do tempo.

Sinto-me como o professor chines isolado do mundo (ver "A Longa Marcha" de Ed Jocelyn e Andrew McEwen, só assim numa de sugestão literária (confesso que o livro é relativamente desapontante) ), retido numa aldeia onde toda a população tem uma mentalidade do século XVII. Quase toda a música que gosto, toda a gente ou não gosta ou não conhece, quem conhece raramente (verdadeiramente) aprecia. Quase ninguém lê, ridicularizam esse acto basilar de crescimento intelectual. Entre um documentário e uma porrada de wwf, viva a wwf, ver cacetada combinada é que satisfaz o pessoal. Saber o que o regime Nazi ou Estalinista fazia com os prisioneiros dos campos de
concentração/ gulags é saber demais e ser estranhamente extremista ( ?). Entre a historia politica do pais ou da europa nos ultimos 30 anos e uma serie merdosa (lanço a farpa à palhaça de Grey), baba-se tudo pela cinzenta.

Olho para o lado e vejo-me cercado por ganzados, cocainados, bebados (n sei ate que ponto me inclui-o nesta categoria), viciados de todo o tipo. escapes e escapes a realidade, avisados por tudo e mais alguma coisa.

Cortamos as nossas pernas por gosto. Tantos telhados de vidro. Que escravos da vontade.

Fiquei sem vontade de continuar